Às vésperas do lançamento oficial do projeto “SOBRAL CURTE PAZ” no dia 13 de maio, às 19h no Arco de Nossa Senhora de Fátima, é bastante conveniente uma reflexão sobre a saudação que Jesus dirigiu aos seus apóstolos logo após a Ressurreição: “A paz esteja convosco!”


Eis as palavras de Jesus quando após sua morte apareceu aos discípulos: “A paz esteja convosco!”. A comunidade ali reunida estava por sua vez amedrontada, temerosa, trancada em seu próprio lar. Um lugar que deveria ser de convivência e descontração, tornou-se naquele momento uma prisão. Observando a atual conjuntura, ou seja, os fatores que norteiam a sociedade vigente, é possível perceber que as pessoas do século XXI estão inseridas também neste ambiente em que estavam os discípulos. Qualquer comparação não é mera coincidência, mas é fruto de uma série de questões em que desde muito tempo o ser humano está inserido.
A paz esteja convosco. Esta é uma expressão de quem deseja favorecer um bem-estar a alguém. Percebendo o conflito exterior ou interior do outro, transmite, através destas palavras, uma tentativa de reanimar ou ainda de propor uma saída mediante os horizontes destruídos da condição existencial da pessoa. A paz, que é tão almejada no contexto atual, nos leva a alguns questionamentos. Afinal por que tanto clamamos algo que nós também evitamos? Parece paradoxo ou controvérsia, mas é isto mesmo que acontece. Entendemos a ideia de paz como ausência da violência. À primeira vista parece coerente, mas ainda não, porque não ser violento é negar algo que nos foi atribuído por um condicionamento social. Basta pensar quando sabemos de alguém que fez um grande mal a outra pessoa. A primeira ideia que nos vem à mente é de que quem realizou tal ato é um ser “desumano” que cometeu uma atrocidade e por sua vez tem que pagar pelo crime cometido. O que está por trás desta ideia? O nosso desejo inconsciente da tal violência.


A paz esteja convosco vem ser também um pensar no outro independente daquilo que o outro tenha realizado. Parece inclusive muito próximo do que nos ensina Jesus: “amai-vos uns aos outros”. Amar passa pela dimensão do respeito, mesmo quando este comete algo que ao nosso julgamento não é algo bom. Antes que se pense que aqui estou defendendo quem comete o ato violento, vamos a um novo elemento, a formação daquele que comete a violência. Observe a vida particular de quem comete um ato violento, mas comece analisando dentro de você, exatamente, quando alguém promove algo de que você não gosta. Qual a sua atitude? No primeiro instante, você pode até tentar remediar ou suportar a situação e quando não mais tem forças para isso, vem o ato contrário àquilo que se compreende como paz, ou seja, o exercício da maldade. O correto seria ser bondoso mesmo mediante a ação indesejada contra você. Vivemos em um mundo real onde as pessoas se machucam e infelizmente estão optando pela prática daquilo que é mais conveniente, embora nem sempre seja o mais correto a se fazer, e por conta disso estamos formando uma sociedade que verbaliza o clamor pela paz, mas realiza atitudes contrárias a ela.
A paz esteja convosco, doce expressão cuja pronúncia nos faz bem. É também de Jesus um grande exemplo quando na última ceia mostra aos seus discípulos o maior de seus ensinamentos, fazer para que o seu exemplo seja repetido por aqueles que estão ao seu redor. Ele mesmo diz após lavar os pés dos discípulos: “dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós”. A paz é uma manifestação do bem. Não é mera ideia. Ela é e deve ser assumida como atitude e compromisso que deriva de todos. Pais e mães, não está na hora de perceber como vocês estão agindo, se têm coerência com aquilo que dizem em relação àquilo que fazem?
A paz esteja convosco! Vejo que esta é uma expressão digna de Jesus. Ele sabia que ao final das contas é disso que nós precisamos, quando temos medo de mostrar quem de fato nós somos, e não enfrentando nossas fraquezas preferimos culpar a muitos que também são vitimas sociais assim como nós embora em proporções diferentes, quando também trancados estamos em nosso egoísmo de olhar muito para nós mesmos, e de perceber que nossas atitudes de hoje colaboram com a falta de paz do amanhã. Ele é realmente digno de nos lembrar que a paz é uma experiência de amor onde aprendemos a nos amar para amar o próximo, de respeito pela história do outro. A paz não é mera manifestação, é um aprendizado que às vezes demanda a vida toda e que talvez só possa ser compreendida após a ressurreição daqueles que amamos ou perdemos.
A paz esteja convosco. Que encantador e válido será quando percebermos que a paz é uma ação muito concreta que inicia em nossas relações do dia a dia, na forma de tratar as pessoas em nossos ambientes de convivência, quando entendermos que a paz vai além do sentimento diante do alivio da falta de quem amamos, do grito que clama por justiça ou da não prática desenfreada da violência, quando se entende que não é algo com que se perdeu tempo, mas ela é certeza de um encontro.  Jesus poderia muito bem ter aparecido de braços erguidos como quem chega para abraçar e dizer o óbvio “Eu ressuscitei”, mas sua fala foi por aquilo de que os discípulos necessitavam naquela época e hoje diz também para nós, “A paz esteja convosco”.

 Fonte: Jornal Correio da Semana

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